Forlorn! the very word is like a bell
To toll me back from thee to my sole self!
Adieu! the fancy cannot cheat so well
As she is fam’d to do, deceiving elf.
Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
Past the near meadows, over the still stream,
Up the hill-side; and now ‘tis buried deep
In the next valley-glades:
Was it a vision, or a waking dream?
Fled is that music: – Do I wake or sleep?
(Desolado! a palavra soa como um dobre,
Tangendo-me de ti de volta à solidão!
Adeus! A fantasia é véu que não encobre
Tanto como se diz, duende da ilusão.
Adeus! Adeus! Teu salmo agora tristemente
Vai-se perder no campo, e além, no rio silente,
Nas faldas da montanha, até ser sepultado
Sob o vale deserto:
Foi só uma visão ou um sonho acordado?
A música se foi: – durmo ou estou desperto?)
(John Keats, “Ode to a Nightingale” trad. Augusto de Campos)

Que há um terror imenso na pandemia do Covid-19, disso não tenho dúvidas. Todos os grandes eventos da história mundial (e a praga não deixa de ser um deles) que produzem tamanha perda humana e forçam tal mudança de hábitos atingem-nos com impacto demais para que a consciência consiga entender. Encontramo-nos, com frequência, balbuciando, incapazes de chegar a um juízo sobre a situação que exige de nós uma resposta. Esquecemo-nos de tudo o que sabíamos, porque de repente isso tudo parece inútil. Somos forçados a esquecer de muito de nossas respostas do passado, porque agora elas não são suficientes para o presente e o futuro. Ao mesmo tempo, temos pressa para extrair novos conhecimentos delas, que de repente são antiquadas. Essa condição, porém, é talvez a mais rica para o pensamento, porque o pensamento só pode começar onde o esquecimento já se deu. O pássaro de Minerva abre as asas apenas quando as sombras da noite já vão altas, como anunciou Hegel na Filosofia do Direito. Sabemos desde já que estamos vivendo uma tragédia, ou ao menos “tragédia” pode ser o único modo adequado que o futuro poderá empregar para referir o presente. Como toda tragédia, esta tem muito a trazer à luz. Ela está longe de terminar, mas já permite prever as lições que deve epifanizar para nós.

Estive lendo recentemente alguns artigos que veem a quarentena com otimismo. Seja esse otimismo dirigido à natureza, seja ao ser humano. Mesmo um artigo menos otimista sobre o isolamento não deixa de notar que esse tipo de medida, brusca, provoca, sobretudo, uma mudança em nossa socialização porque mudara nosso cotidiano – o que impacta sobre nossa saúde mental, mas também obriga repensar a maneira como nos relacionamos uns aos outros. Não me lembro agora onde, mas sei que há um artigo relatando o retorno de animais silvestres a algumas grandes metrópoles e a gradual despoluição de alguns rios. Parece que em países onde a quarentena e a doença foram mais radicais do que aqui a natureza pôde ser mais rápida em sua marcha implacável e andou recuperando coisas que estavam nas mãos humanas. A que me recorde bem, há rios sendo despoluídos na Itália e, se não me falha a memória, pelo menos um cervo foi visto trotando pelas ruas de Tóquio. Pode ser que as informações sejam imprecisas, mas não me parece que sejam impossíveis de imaginar. Ouvi dizer que, em São Paulo, em razão da paralisação das indústrias e da menor circulação de automóveis, a atmosfera já começa a assumir uma coloração mais agradável ao olho do que aquela que nos acostumamos a atribuir ao ar da capital. Caso mais alguém tivesse curiosidade sobre como seria o cenário após a tempestade apocalíptica, ao menos o último prognóstico é bem romântico.

Saiu recentemente um texto de Catherine Malabou, se não me engano na Critical Inquiry, dizendo que a quarentena só vale se for possível tirar uma “quarentena dentro da quarentena”. Isto é (e pelo que recordo), se mesmo em meio ao isolamento social nós pudermos reservar um momento para estarmos sozinhos com nós mesmos. A filósofa lembra um trecho das Confissões, de Rousseau, no qual o genebrino foi forçado a se isolar durante uma viagem à Itália em razão de um surto de peste que decorreu da chegada de alguns caixões em um porto. Os caixões carregavam cadáveres infectados e sua abertura resultou no surto. Rousseau, tendo que escolher onde ficaria isolado, escolheu o “Lazaretto”, que é um hospital para os infectados, onde conseguiu realizar o isolamento completo. Enfim. O que importa aqui são suas conclusões. No final da reflexão, Malabou diz o seguinte (a tradução é por minha conta):

“Admiro aqueles que são capazes de analisar a crise atual provocada pela pandemia do Covid-19 em termos de política global, capitalismo, estado de exceção, crise ecológica, relações estratégicas China-EUA-Rússia etc. Pessoalmente, no momento, estou, ao contrário, tentando ser um ‘indivíduo’. Novamente, isso não se deve a qualquer forma de individualismo, mas sim a eu pensar, ao contrário, que uma epochè, uma suspensão, uma suspensão [bracketing] da socialização, às vezes é a única via de acesso à alteridade, uma maneira de se sentir próximo a todas as pessoas isoladas na terra. Tal é a razão pela qual estou tentando estar o mais solitária possível em meu isolamento [as solitary as possible in my loneliness]. Tal é a razão pela qual eu também teria escolhido o lazaretto.”

A intimidade, a interioridade, não é a mesma coisa que o isolamento e a atitude antissocial. Não é a mesma coisa que se fechar em si e se esquecer do mundo. É talvez a versão mais profunda do “conhece-te a ti mesmo”, precisamente no sentido em que esse conhecimento nos permite, por meio de um momento de negação, dar novo sentido à vida com os outros. Essa intimidade (que é a negação do isolamento) na qual a poesia romântica tanto insistiu (e diversas vezes foi, infelizmente, ignorada) é esse momento de negação que nos é forçado agora para que ele mesmo possa ser superado no futuro. Agora que vivemos esse momento negativo, de isolamento da sociedade da qual não tínhamos escapatória, poderemos ver a ela e a nós mesmos em seu ocaso. Precisamente esse momento é o mais fértil do qual se extraírem lições para o futuro. Contudo ele não deve ser tomado como o sono profundo no qual mergulhamos em nós mesmos. Ele é, na verdade, a agressiva passagem do sono à vigília, a ocasião em que não estamos nem em nós nem no outro. Aqui, somente aqui, é possível começar a pensar na continuidade tanto do sono quanto da vigília.

A única forma de não tirar uma “quarentena dentro da quarentena” é insistir em permanecer na ilusão que precedia a quarentena. Não foi à toa que escolhi como epígrafe a estrofe final do “Rouxinol”, de Keats. Após uma longa viagem ao terreno da ave imortal por meio das “asas invisíveis da Poesia”, toa o poeta de volta – não para a realidade – mas para dentro de si mesmo a própria música em sua forma aparentemente mais lírica (a sonoridade da palavra inglesa “Forlorn”, essa palavra que é “como um dobre”). A fantasia, no poema de Keats, é sugestivamente interrompida, mas não o é nem pela embriaguez da canção nem pela aderência à realidade, e sim pelo livre jogo do significante. Ironicamente, é a palavra mais cantada que suspende a embriaguez da canção. Essa condição resultante é justamente o estado da poesia, de suspensão entre dormir e estar desperto – porque na temática do poema temos a afirmação do despertar, mas o texto em si dissipa todo esse “despertar” a partir de seu jogo sonoro. Como o poeta no final dessa ode, estamos hoje nem despertos, na realidade lá fora, nem sonhando – fomos toados de volta à solidão. Estamos no momento, como no poema, em que as formas com as quais nos acostumamos nesse longo sono que é a vigília se desencontram consigo mesmas e começam a ser visíveis as fantasias nas quais vivíamos, exatamente porque se desfazem em seu próprio modo de apresentação. A fantasia na qual nos imbuímos se desfaz exatamente em um momento no qual somos retirados do “faz de conta” da realidade e lançados nesse “faz de conta” que é o isolamento. E, na verdade, como toda negação, esse momento de intimidade não mostra nada novo, mas revela o que sempre já estava lá. O nosso dormir acordado no momento revela que sempre estivemos dormindo acordados. No entanto, o desfazer-se das fantasias e canções-de-ninar do mundo-lá-fora não é a mesma coisa que elas deixarem de existir. As ilusões que acalentam nosso dormir acordado no mundo real começam a se desencontrar com sua própria coerência – justo porque fomos projetados para um “sono quanto ao sono”. A própria realidade força essa percepção, por paradoxal que isso possa parecer. Temos pela intimidade a chance única de olhar nem para o íntimo nem para o externo (a oposição entre ambos sendo apenas ilusória), mas para a fantasia que, como véu, não é nem aquilo que encobre nem o que nós somos. Quando sairmos daqui, vamos olhar para nossa linguagem e suas fantasias como se fosse a primeira vez (e os poetas sempre fizeram isso). Quais são essas fantasias e o que vamos fazer delas após esse momento de suspensão – descobrir isso é algo que a quarentena exige de você na intimidade de sua quarentena.

(Para o artigo de Catherine Malabou, https://critinq.wordpress.com/2020/03/23/to-quarantine-from-quarantine-rousseau-robinson-crusoe-and-i/

Minha interpretação do “Rouxinol”, de Keats, deve muito a um comentário feito por Paul de Man em sua resposta a Murray Krieger em um congresso de 1981. Para o texto completo, ver seu livro “Romanticism and Contemporary Criticism”, das páginas 181 a 187).

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